quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

(ESPECIAL) Içami Tiba

Içami Tiba: senso comum pausterizado que vende!



Este post surgiu de uma contribuição muito especial de Luiz Graton, leitor deste blog, que enviou a seguinte informação estarrecedora para mim:



"Em pesquisa realizada em março de 2004, pelo IBOPE, entre os psicólogos do Conselho Federal de Psicologia, os entrevistados colocaram o Dr. Içami Tiba como terceiro autor de referência e admiração - o primeiro nacional.

1º- lugar: Sigmund Freud;

2º- lugar: Gustav Jung;

3º- lugar: Içami Tiba.

Seguem C. Rogers; Lacan; M. Klein; Winnicott e outros.Esses dados foram publicados no Jornal de Psicologia nº- 141, edição julho /setembro de 2004, do CRP-SP."


Primeiramente penso ser oportuno destacar que Içami Tiba é psiquiatra e não psicólogo (apesar de ter formação em psicodrama). Acho sintomático os psicólogos brasileiros não votarem em um psicólogo como autor de referência, mas em médicos (Freud, Jung e Tiba). Mas isso é assunto para outro post...


Vendo os livros da autoria de Içami Tiba na BU-UFSC pude notar que todos giram em torno da educação familiar aos jovens. Tiba se tornou o maior porta-voz brasileiro da tese de que a escola não deve ser a responsável pela educação moral: isso é responsabilidade da família no lar.


Partindo dessa tese central, Tiba desenvolve outros dois sub-temas da educação familiar em seus diversos livros: a) a disciplina na medida certa e b) o controle dos adolescentes, especialmente quanto ao uso de drogas.



Para ser sincero, eu que nunca li esse autor, até me empolguei com os temas, uma vez que eles realmente são muito oportunos no atual contexto social. A propósito, tive mesmo a impressão que Tiba fez uma pesquisa de marketing para saber quais os temas que venderiam mais...

Movido por curiosidade peguei "Quem Ama, Educa!" (um de seus maiores bestsellers, num exemplar de 37a edição pela Editora Gente) na BU-UFSC e levei para ler em casa.


Que decepção!


A primeira coisa que notei é que, pela linguagem, o livro parece ter sido escrito para crianças de cinco a dez anos. Ainda sobre a forma, há uma total falta de referências bibliográficas e o livro todo é escrito como um ensaio livre. Tiba simplesmente sentou-se na frente de seu PC e começou a digitar suas idéias (psicólogos andam com preguiça de ler textos densos, pelo visto).

A primeira parte do livro é dedicada a explicar as diferenças entre homens e mulheres, pais e mães. Removi alguns trechos hilários:

"A mulher vai pensando enquanto fala. O homem pensa antes de falar" (Umas amigas minhas, feministas, ficaram loucas para encontrar Içami Tiba depois dessa!)

"Numa refeição em casa, se o filho não quer comer, "Que não coma", pensa o pai. A mãe faz de tudo para alimentá-lo com carinho" (Ou seja: "Homens, tudo bem vocês serem grosseirões com seus filhos. É da natureza de vocês!")

"O marido é na verdade um filho temporão da esposa" (Claro, Tiba... Afinal macho que é macho é imaturo, boboca e deixa cueca suja no box).

"O pai ou a mãe nunca se transforma biologicamente no progenitor do sexo oposto" (Ah, ainda bem que ele me avisou!)

"Nosso comportamento sexual tem bases biopsicossocioantropológicas" (Caramba! Será que ele consegue dizer essa palavra três vezes bem rápido numa conferência?)

O livro prossegue com uma tipologia bizonha dos comportamentos, classificados em três classes: vegetal (ser passivo), animal (ser agressivo) e humano (disciplinado e afetuoso). Ok, Tiba simplesmente inventou essa tipologia, como uma espécie de parábola. Aliás, o livro está abarrotado de metáforas parecidas. Ele não sabe que só se usa muitas metáforas quando o público-alvo é completamente ignorante? (Ops, acho que ele sabe sim...)

A partir daí o livro vira uma seqüência de perguntas-e-respostas, no estilo daquelas colunas de auto-ajuda de revistas semanárias. Todas as respostas, claro, escritas com linguagem para criança, sem referências e repletas de opiniões particulares e cheias de preconceitos (especialmente sexistas).

Vale destacar... Em uma das perguntas, sobre videogames e violência, Tiba responde contando uma história de dar medo, onde um garoto e seus comparsas ensaiavam o seqüestro da namorada em um videogame... Ora, ora, ora. Eu, que atuo na área de games há 5 anos, nunca ouvi falar de um game em que fosse possível isso! Ademais, a história, que tem cara de notícia de jornal de segunda categoria, não tem referência bibliográfica alguma. Pode muito bem ser uma lenda urbana, ou pura invencionice da cabeça criativa de Içami Tiba!

Concluindo...
O que me parece é que Içami Tiba faz sucesso porque fala (mal) coisas óbvias sobre problemas atuais, baseado em achismos. Só conseguiu a projeção atual porque fez uso da indústria da auto-ajuda. Saber que Içami Tiba é a grande referência para os psicólogos brasileiros e que ganha fortunas dando conferências sobre educação me entristeceu em relação a essa classe profissional!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

"Inteligência Multifocal"

A síntese de todas as besteiras anti-científicas!




É sério. Nunca li tanta bobagem junta em tão poucas páginas. Peguei esse livro na Biblioteca da UFSC e levei pra casa, e não pude ler senão com um balde ao lado para emergências.
Trata-se da "obra prima" de Augusto Cury. O livro que ele tentou emplacar como dissertação de Mestrado e foi (por algum motivo) rejeitado em inúmeros universidades. "Inteligência Multifocal" é a base de sua teoria, da qual saiu todos os seus inúmeros livros (já comentados nesta comunidade no post Especial sobre Augusto Cury).


Não resisti a tentação e fui beber a água (de esgoto) direto da fonte.
Pois bem... O que dizer do livro "Inteligência Multifocal"?

Para começar, a introdução do livro, na qual ele explica como sua revolucionária teoria foi criada, já é regorgitante. Cury diz mega-abobrinhas já nas primeiras págincas. Diz, por exemplo, que sua teoria é única, original, comparável a dos grandes pensadores, como Freud, Jung, Platão, etc (Absoluta arrogância!). Quando explica como chegou a essa teoria, diz que foi tendo suas idéias particulares, como livre pensador e fora do "cárcere da Academia". Ele chega a dizer que simplesmente parava, pensava e anotava suas idéias, se recusando a saber o que outros pesquisadores do presente e do passado disseram sobre aqueles temas para não ser contaminado. Esse é o método de pesquisa de Cury...



Sobre a teoria em si, trata-se do mais puro mentalismo totalmente clonado da obra de Freud. Cury assume que é um psicodinâmico (ué, ele não era 100% original?) e o tempo inteiro fala de inconsciente, energia psíquica, mente, etc. Contudo, ele mistura essa percepção superficial da psicanálise com cognitivismo, falando de estruturas da mente e do processamento de informação no cérebro. Em resumo: sua teoria, do ponto de vista epistemológico, é um misto confuso e mal arranjado de psicanálise e cognitivismo, com ênfase em aspectos psicossociais.
OBS: O nome "Multifocal" vem do fato que ela explica diversos aspectos do EU humano (que Cury diz serem 32, mas não oferece a lista em nenhuma parte do livro).


Basicamente a "Inteligência Multifocal" de Cury determina que


1) a inteligência, a mente, a personalidade, a consciência, o EU, self, etc, são uma mesma coisa. Essa entidade vive dentro de nós (na perspectiva mentalista) como um eu-gerador, e é formado pelos 3 "mordomos da mente": a memória, os pensamentos presentes e o fluxo da energia psíquica (???).


2) O EU surge ao se apropriar da da memória para gerenciar os pensamentos, que podem ser dialético, antidialéticos, tridimensionais, essenciais, inconscientes, etc (e que aliás são mais ou menos a mesma coisa que emoções e sentimentos).


3) Esse EU-interior se exterioriza nas relações psicossociais com outros EUs (pessoas) através de "psicoadaptação" e evolução pelo exercício da "cidadania"(???); mas é fundamental que ele interiorize o mundo através da criatividade, da poesia, da arte de refletir, da arte de questionar, etc.


4) Se o EU-interior não se interiorizar corretamente surgem as "doenças psicossociais", como por exemplo o "Mal do Logos Estéril" (hahahahahha!), pelo qual a pessoa aprende sem prazer (!) e também a temível "Sindrome da Exteriorização Existencial" (hahahahah!), que consiste na incapacidade de se interiorizar (?) através da reflexão e da introspecção. OBS: Realmente a psicopatologia de Augusto Cury tem nomes bem criativos para as doenças.


5) A medida que vive de forma saudável, o EU-interior ganha mais consciência existencial, se tornando pleno e livre de doenças bem como transformando a pessoa num livre pensandor, não amordaçado pelas prisões da Modernidade.


6) A Inteligência Multifocal é a teoria que mais chances tem de tirar os pensadores do marasmo intelectual que estão nem começo de século XXI e levar a humanidade a um salto qualitativo de evolução (HAHAHAHAHHAHH!)


Ufa!

Não acredito que consegui ler aquilo. E nem acredito que consegui resumir esse livro aqui. Para mim "Inteligência Multifocal" não passa de um pastiche de teorias muito mal arranjado. O livro também é mal escrito: o texto é confuso e se arrasta (e olha que foi escrito ao longo de 17 anos pelo autor!).



Sem dúvida, o PIOR livro que já li sobre Psicologia e afins. Estou convencido que Augusto Cury é o maior charlatão do Brasil em se tratando de suposto profissional de saúde humana!


Caro leitor, foi um trabalho hercúleo da minha parte criar este post. Com licença, vou pegar meu baldinho de vômito...


segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

matéria sobre Auto-Ajuda na revista Psique


Saiu na Revista Psique #23, de dezembro de 2007, uma interessante matéria sobre auto-ajuda.

Não pude deixar de comentar aqui...

Ana Maria Serra, uma representante do Conselho Federal de Psicologia dá o parecer oficial da instituição sobre o tema: "É um tipo de Literatura, um saber não-sistematizado, sem fundamentação científica e que beira o pensamento mágico".

A matéria segue falando de como os livros de auto-ajuda são romances baseados nas experiências particulares dos autores e que propõem fórmulas não-comprovadas para solucionar problemas não corretamente abordados. Podem até ajudar, mas dificilmente, e quando muito, ajudar pouco.

Vale a pena conferir!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

"Quem mexeu no meu queijo?"

Uma das coisas mais bobinhas que eu já li...


Como esse é um bestseller muito citado, tive que ler para denunciá-lo para vocês, caros leitores. Mas não comprei: peguei um exemplar na BU-UFSC e mandei ver. Não digo que li porque livros assim não são lidos, mas apenas folheados.

Ok, ok.. eu já fui esperando uma bomba, pois o autor, Spencer Johnson, também escreveu "O Gerente-Minuto" (já postei sobre neste Blog. Procure nos posts de setembro)

A começar pelo formato... Letras imensas, páginas com apenas uma frase, vastos espaços em branco. Tudo feito para fisgar quem não está habituado a ler. Detalhe bizarro sobre o texto: a palavra "queijo" se repetia quase 5 vezes por página, numa verdadeira "lavagem cerebral" que mais irritava que qualquer outra coisa.

Já o conteúdo... Alguns amigos se reencontram depois de anos sem se ver e notam como as coisas mudaram. Um deles conta uma parábola sobre mudanças, para amenizar o clima. A historinha de dois ratos e dois homens em um labirinto, procurando um queijo que muda de lugar. Os dois ratos são as nossas "partes simples", instintivas, que fazem as coisas de forma tranquila. Os dois homens são nossas "partes complexas", i.e., emoções, pensamentos e outras coisas que tendem a tornar tudo mais complicado que é. O queijo é o objetivo da vida (qualquer um) e o labirinto é a vida repleta de obstáculos, imprevistos e afins, como ela de fato é.

Moral da história: mudanças são coisas simples e fazem parte da vida, encare-as com naturalidade e aprenda a se adaptar.

Então
esse é o tão falado "Quem mexeu no meu queijo?". Que coisa bobinha! Quando eu li não pude deixar de me sentir tratado pelo autor como se eu tivesse cinco anos. Não é a toa que saiu uma versão "for kids" (como se a primeira já não fosse!).






"Quem mexeu no meu queijo? (Para Crianças)": um pleonasmo?

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Por que CEOs dão ouvidos a auto-ajuda?

Sempre que um grande figurão do mundo corporocrático é perguntado sobre o que está lendo ele responde com algum bestseller da vez, em geral escrito por um guru empresarial ou afim e que fala de formas inovadoras de gerir negócios. Já notaram isso?

É impressionante como homens e mulhere inteligentíssimos, que lidam com negócios às vezes de bilhões de US$ dão ouvidos a qualquer cascateiro que consegue emplacar um bestseller!

Esse fato me fez deduzir uma coisa: os grandes homens de negócio tem fraca formação filosófica e científica, por isso acham que precisam ler esses manuais "mastigadinhos" onde um guru dá fórmulas para quem não tem tempo ou interesses de parar para pensar. Uma outra forma de se proteger da auto-ajuda: filosofe por conta própria e questione as idéias da moda. Afinal, elas podem estar erradas ou serem pura redundância, mais-do-mesmo já batido.

Dessa cadeia de eventos acabei deduzindo que a melhor forma de estar acima da auto-ajuda, não precisando dela senão para conhecer as palavrinhas da moda, é ler os clássicos. Sim, porque os conceitos já estão todos lá, nos clássicos. O conteúdo deles só é "adaptado" e ganha nomenclatura diferente.

Talvez um dia os ocupados business men deixem de consumir a filosofia barata que é a auto-ajuda e contratem um preceptor para ensinar-lhes a filosofar com qualidade por conta própria.

Se não for um preceptor, quem sabe um "coach"...

Iniciativas como "A Casa do Saber" (onde gente rica vai aprender em grupo temas filosóficos) pode ser um bom sinal apontando pro fato de que os poderosos querem ficar mais sábios, também.

Qualquer coisa que diminua a influência da auto-ajuda soa bem!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

(Especial) Fritjof Capra

Ele é anti-capitalismo, mas é o consultor empresarial mais bem pago da Europa...




Você pode estar se perguntando: "Um momento.. Fritjof Capra escreve auto-ajuda?"

Defendo que sim. E de um tipo bem pernicioso: que faz uso de Ecologia e Religião.

A obra de Capra é um misto de Fìsica Teórica, Ecologia e Misticismo. Desse pacote ele extrai receitas para tudo: como curar o mundo, como melhorar a política, como otimizar a economia, como salvar uma empresa, etc.

Fritjof Capra é Físico Teórico mas ganhou a vida como consultor empresarial e escritor de bestsellers.

O primeiro mais famoso foi "O Tao da Física", onde ele defende que a Física Quântica e a Filosofia Oriental falam das mesmas coisas. Esse livro foi escrito logo depois de Capra conseguir sair vivo dos anos 1970, onde assume que abusou de todo tipo de substâncias.

Em seguida veio "O Ponto de Mutação", onde ele é mais prático e demonstra como a Política e a Economia devem se adequar a uma visão ecológica e mística. Esse livro rendeu um modorrento filme homônimo.

Em "Sabedoria Incomum" ele dialoga sobre Fé e Religião com representantes de diversas crenças, para concluir que a Ciência do século XXI apontará para o misticismo oriental.

O livro mais importante conceitualmente dele é "A Teia da Vida", na qual ele diz finalmente ao que veio. Sua teoria fundamental é que as coisas são sistemas vivos, e como tal têm quatro propriedades fundamentais:

1) Estrutura delimitada por uma membrana seletiva

2) Fluxo de matéria e informação que mantém a estrutura se renovando ciclicamente

3) Sistema de tomada de decisões que permite uma seletividade em relação ao meio

4) Um propósito, significado de existência no meio ambiente, interligado a outros sistemas vivos.


Esses 4 pontos são o núcleo da "Ecologia Profunda" de Capra (visão de homem e de mundo que ele defende).

Em seus livros, muito consultados por grandes empresários, ele defende que a empresa deve ser vista como um sistema vivo nesses quatro termos. Da mesma forma, ele também defende que a Sociedade é um sistema vivo, e por aí vai.

Mais recentemente Capra lançou "Alfabetização Ecológica", que não passa de um aprofundamento desse modelo quaternário de sistema vivo.

Apesar de ir contra o capitalismo, ele não se incomoda nada em cobrar até 100.000US$ por palestra de 1 hora, e ser o consultor empresarial mais bem pago da Europa há quase 15 anos.

Importante: Capra não é um cientista. Ele é um divulgador de saberes científicos (mesclados com saberes religiosos, filosóficos particulares, etc) no formato de auto-ajuda.


Se alguém me pergunta quem é Capra, eu resumo assim: "É um Físico Teórico que não obteve sucesso em sua profissão e foi esperto, se tornando um autor de bestsellers de auto-ajuda empresarial".

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

"As 6 Decisões Mais Importantes que Você Vai Tomar na Sua Vida"

O título desse livro poderia ser
"Seis soluções moralistas para problemas de adolescentes"

O autor é filho de Stephen Covey, o autor do bestseller "Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes". Sean continua a tradição do pai (como boa estratégia de marketing) não apenas no estilo do título de seu bestseller, mas também na forma de resolver as questões do leitor.

Stephen e Sean Covey são membros dos Santos dos Últimos Dias (mórmons) e vivem na capital mundial da igreja: o ultra-conversavador estado teocrático de Utah, EUA. E o conversadorismo moral dessa comunidade é a tônica do livro, que foi escrito para adolescentes.

As 6 decisões do título dizem respeito a 6 problemas éticos dos adolescentes:


1- como orientar os estudos, a vida escolar e acadêmica

2- a relação com os pais

3- como escolher, fazer e manter amigos

4- namoro e sexo

5- dependência de substâncias e outros vícios (alcool, drogas, jogos, etc)

6- auto-estima (como ter e manter)


Sean Covey dá respostas moralistas para essas questões, e isso é o livro.

Ele vende tão bem por causa da tradição e renome da família Covey enquanto autores de bestsellers da auto-ajuda.

Na parte 4, sobre namoro e sexo, por exemplo, ele diz algo como

"Se você acha que fazer sexo vai mudar sua vida, você não está pronto para essa decisão. Se você acha que isso também não vai mudar sua vida, você também não está pronto"

Hmmmm... Entendeu?

Vale mais a pena você conversar com sua avó sobre esses assuntos do que você comprar esse livro...

sábado, 13 de outubro de 2007

"A Profecia Celestina"

Lucrou milhões! E não foi por coincidência...


"A Profecia Celestina"
é um romance, uma narrativa ficcional onde o autor conta a experiência de desabrochar espiritual de um homem comum dos EUA numa viagem mágica pelo Peru.Trata-se de uma saga pessoal em busca da espiritualização. A jornada ocorre quando ele tem acesso a um misterioso pergaminho peruano (encontrando "por coincidência").

Aliás, o tema central do livro é
perceber e interpretar coincidências como sinais mágicos do Universo. A narrativa segue um esquema que é uma seqüência de "Visões". Cada visão é uma regra que explica, com cada vez mais profundidade, como as estranhas coincidências são sinais do Universo para revelar profundos segredos.

Assim, por exemplo, a primeira visão diz que
"Ao nos conscientizarmos da coincidência estamos nos sintonizando com o mistério do princípio fundamental da ordem no universo". A segunda diz que a percepção dessas coincidências pode mudar sua vida. A terceira diz que o Universo é energia e estamos co-criando ele com nossos pensamentos e por isso as coincidências são formas de darmos dicas a nós mesmos do que devemos fazer. E por aí vai. São ao todo nove visões.

Ok, já que o aparentemente mágico mecanismo das coincidências é a chave de compreensão de "A Profecia Celestina", falemos então de
como funcionam a percepção de coincidências.

Lembro de que quando tive meu braço engessado há dois anos eu andava na rua e via diversas pessoas de braços engessados, como nunca tinha visto antes. Será que a quantidade de pessoas de braços engessados aumentou depois que eu engessei o meu? Caso sim, teria sido uma imensa coincidência (provavelmente um
sinal cósmico, segundo "A Profecia Celestina"). Mas o que aconteceu foi simplesmente que eu passei a prestar mais atenção a variável "braço engessado" por eu estar passando por essa experiência. A quantidade de pessoas com gesso no braço provavelmente não havia sofrido alterações significativas (a não ser que um louco na cidade houvesse passado a semana quebrando braço de gente), mas minha percepção havia mudado por conta de minha experiência.

O que "A Profecia Celestina" ensina é a treinar sua percepção para
desencavar ou fabricar coincidências através de associações elaboradas. Assim o leitor que acredite no conteúdo desse livro passará a ver em tudo os tais sinais do Universo, o que parece ser excitante, e até uma tremenda injeção de ânimo e auto-estima em quem está passando por maus bocados.

Em suma, o livro condiciona os leitores a verem coincidências em virtualmente tudo. E quem procura coincidências por toda parte, certamente as achará, mesmo que não existam...


sábado, 6 de outubro de 2007

Um Imposturômetro para Auto-Ajuda



Se você não leu "Imposturas Intelectuais" sugiro que leia. Foi dessa obra majestosa que veio a idéia deste post!





Note, caro leitor: é a primeira vez que eu recomendo um livro neste Blog!!!!!

Alan Sokal e Jean Bricmont, "Imposturas intelectuais". Rio de Janeiro: Record, 1999
.





Tive a idéia de criar um "imposturômetro". Isto é, uma forma de medir a quantidade de imposturas intelectuis que um livro de auto-ajuda profere.

Entendo que dentro os livros desse gênero todos são ruins, mas há alguns que são piores. Pois é.. Como saber quais os campeões de bobagens? Como precisar quem é o autor mais impostor? Como estabelecer uma escala de poder de intoxicação desses livros?

Este post tenta dar uma solução a tudo isso com um checklist bem simples.

Escolha um livro de auto-ajuda X. Sobre ele, para cada uma das perguntas seguintes, responda com "sim" ou "não". Para cada "Sim" marque 1 ponto.

Ok?

Vamos lá.

Sobre o autor

1) O autor se auto-elogia? (Um auto-elogio pode ser camuflado em depoimentos de amigos famosos ou citações repetidas de títulos acadêmicos e sucessos de vendas, portanto, cuidado com a sutileza deste ponto!)

OBS: Se em algum trecho ele se sugere que é um gênio ou "mago" ou se arrola ao lado de Da Vinci e Freud, então marque 3 pontos ao invés de 1.


2) Ele sugere que descobriu algo fantástico e estonteante e que está te fazendo um favor incomensurável em te revelar isso ?

OBS: Se em algum momento ele diz que suas descobertas vão revolucionar a Ciência e/ou o Mundo caso aplicadas, então marque 3 pontos ao invés de 1.


Sobre o livro


3) Ele promete cura garantida para o problema de que trata, caso seguidas as instruções, ou sugere que a resolução é "como mágica"?

OBS: Se o livro deixa entendido que é um método para resolução de QUALQUER problema então ele pontua 3 pontos.


4) Diz que o processo de superação dos problemas é fácil e simples, e qualquer um pode fazer sem muito esforço?

OBS: Se o livro insiste que essa "mágica" não precisa ser entendida, que é algo misterioso mesmo que você precisa apenas aceitar, então marque 2 pontos ao invés de 1.


5) O livro tem bibliografia? Caso não, marque 2 pontos.

6) O livro foi escrito em uma prosa "homeopática"? (Cheia de resumex, estilo prosaico, frases de efeito, historinhas para ilustrar, e com poucos conceitos densos?) Caso sim, marque 1 ponto.

7) O livro enfatiza o papel do leitor como solucionador de si mesmo? Em outras palavras, diz coisas como "Tudo depende de você. Apenas de você"

Ok, ok.

Agora você sabe medir o quão impostor um livro de auto-ajuda é, porque você aprendeu a usar a super, mega, ultra "Escala AVR de impostura em auto-ajuda" (Onde AVR é a sigla de Alessandro Vieira dos Reis). Em breve, numa banca perto de você, por apenas 14$99.

Ela vai de 0 a 15, onde "0" significa que o livro não é auto-ajuda e 15 que ele é realmente muuuuuito ruim.

Eis aí alguns exemplos feitos por mim:

"Quem somos nós" - 9 pontos

Esse é mesmo muito ruim, especialmente a parte do "cura tudo e fácil".

"Inteligência Emocional" - 4 pontos.

É auto-ajuda, mas beeeem camuflado de livro científico, por isso pontuou pouco. Tanto é que engana até psicólogos experientes por aí.

"O Monge e o Executivo" - 6 pontos.

6 pontinhos.. bem na média.. um livro de auto-ajuda padrão.

"O Segredo" - 15 pontos !!!!!!!!!

Esse é um caso paradigmático que merece ser estudado a fundo pelos auto-ajudólogos (ramo da Psicologia que acabo de inventar que se destina a desintoxicar as pessoas quem lêem livros de auto-ajuda).

domingo, 30 de setembro de 2007

(ESPECIAL) Augusto Cury


O nosso Daniel Goleman (credo!)


Augusto Cury é médico psiquiatra com pós-graduação em Psicologia Social (área da psicologia que estuda como processos grupais interferem em processos psicológicos e vice-versa). Montou um Instituto chamado “Academia da Inteligência” onde oferece cursos (bem pagos, diga-se de passagem!) para terapeutas e afins. O cara é mesmo um empresário de mão cheia: também escreveu inúmeros livros de auto-ajuda e continua produzindo.

Em quase todos esses livros há uma pequena referência sobre o autor na orelha traseira do livro que fala sobre duas coisas importantes em sua obra:

1) o fato de seu pensamento ser inspirado em Freud, Piaget, Vygotsky, Paulo Freire, Wallon, Winnicott, etc, etc, etc (muitos, muitos autores mesmo). Querendo dizer que ele é estudado.. sei, sei..

2) e sua “obra-prima” ser o bestseller Inteligência Multifocal”, onde ofereceria uma teoria revolucionária para a “mente” humana, muito boa para o mundo materialista e fútil que vivemos (segundo propaganda própria).

Pois bem... Não vou falar de TODOS os livros de Augusto Cury por uma razão óbvia: porque se fosse não teria mais tempo hábil para escrever mais sobre nenhum outro autor de auto-ajuda!

O cara deve ter escrito milhares: “Nunca desista de seus sonhos”, “Pais brilhantes, professores fascinantes”, “Você é insubstituível”, “Dez leis para ser feliz”, “Maria, a maior educadora da história”, “O futuro da humanidade”, etc.

OBS1: Os livros custam todos entre 25$ e 15$, alguns saem por 9$90.

OBS2: Notaram como alguns títulos revelam que foram “inspirados” em modismos da época de seus lançamentos? Por exemplo, “Pais brilhantes, professores fascinantes” foi na onda de “Pai Rico Pai Pobre”, de Robert Kyiosaki (Até a capa dos livros é parecida!).

Ao invés de falar de todos os livros de Augusto Cury farei o seguinte como estratégia alternativa: comentarei os dois pontos supra-citados nas orelhas de seus livros (seu referencial teórico e sua obra-prima).

O referencial de Augusto Cury: de Freud a Bob Esponja

Para começo de conversa, caro leitor, quando alguém diz que baseia sua obra em mil teóricos tão diversos, de tamanha distância teórico-metodológica, isso não é sinal de um saudável ecletismo mas sim de uma indefinição fundamental. (Miscelânias podem ser atraentes em lojas de R$ 1,99 e outros cacarecos, mas só geram confusão em livros técnico-científicos!).

Não dá pra sair misturando partes iguais de Piaget e Vygotsky (que divergem em muitos pontos fundamentais) com pitadinhas de Paulo Freire, um caldo de Freud e um tempero Psicossocial e Neurocognitivo (ufa! quanta coisa!) e esperar que saia disso um banquete. Antes é mais fácil sair um prato indigesto porque confuso. Essa falta de compromisso com alguma matriz de pensamento também pode ser vista como tática para pular de galho em galho, ao sabor de modismos.

A “obra-prima” de Augusto Cury

Querem ver do que estou falando? Peguemos a “obra-prima” de Augusto Cury: “Inteligência Multifocal”, de 1999. Em diversos aspectos é um livro que lembra muito (mas muito MESMO) outro bestseller de auto-ajuda: “Inteligência Emocional”, de Daniel Goleman (vejam só, que foi lançado em 1995, portanto QUATRO ANOS ANTES!).

A semelhança está no fato de que Cury defende que a inteligência humana vai além de questões lógico-matemáticas e está muito mais em competências como “ser solidário”, “amar a vida”, “pensar antes de agir”, “colaborar”, “saber lidar com perdas”, etc. Em suma, todos aspectos dos quais Goleman fala em “Inteligência Emocional”.

Contudo a diferença (mínima) está no fato de que Cury procura enfatizar a dimensão psicossocial (pessoas em grupos, tema de sua pós-graduação, lembram?) enquanto Goleman enfatiza o indivíduo (como bom norte-americano que é).

Penso ser esse o segredo de Augusto Cury para ser bestseller: um discurso mutável porque eclético em fontes e capaz de abocanhar temas da moda e escrever rapidamente um livro que custe 15$ a respeito. Com uma linguagem simples, livros baratos e sempre sobre um assunto “do momento” ele promete revelar aos leitores segredos da “Inteligência Multifocal” que lhes farão ser mais felizes.

É um sucesso... DE VENDAS!

Em suma, Augusto Cury é mesmo um empreendedor notável da auto-ajuda brasileira, uma fábrica de bestsellers que merece ser estudada (enquanto empresário, mas não enquanto autor).


PS: vale a pena ler esta matéria da Veja sobre Augusto Cury, que chegou a mim por cortesia do Adriano Facioli, querido leitor do meu Blog

http://veja.abril.com.br/110106/p_106.html



sábado, 22 de setembro de 2007

O Gerente Minuto

Você lê em 1 minuto!


Não estou brincando não. Li esse livro em 1 minuto em um sebo!

Duvida? Então abra na página 107. Tem uma diagrama que diz mais ou menos assim:

1) Negocie objetivos com seus gerenciados democraticamente

2) Quando estiverem indo OK com os objetivos, parabenize em público

3) Quando não estiverem indo OK com os objetivos, repreenda em particular, mas em seguida sorria e aperte sua mão.

E acabou. Isso é o livro.

Isso e uma explicaçãozinho sobre o título (presente na Introdução) que diz que o bom gerente é o que gasta no mínimo 1 minuto por dia para observar o semblante dos gerenciados afim de captar o estado de ânimo deles.

"O Gerente Minuto" é tão superficial que rende este que é o post mais curto deste Blog.


sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Tipologia de livros de auto-ajuda

Neste post especial vou expor uma tipologia de livros de auto-ajuda que criei.

Entendo que todos que lêem esses livros procuram ajuda para mudar algo em suas vidas. Por isso os dois critérios de avaliação tipológica desses livros são justamente esses:

a) proposta de ajuda

b) tática para mudança

Pelo critério a), a auto-ajuda varia em um gradiente que vai de "Instrução" a "Cura". (Alguns livros prometem como ajuda algumas instruções para a a vida, enquanto outros prometem curar doenças e afins).

No pólo "instrução" temos os livros que são os "Dicas de Mestre" sobre assuntos gerais. Por exemplo, "Talento para Vencer", de Jack Welch, que fala genericamente sobre liderança nas organizações. Um terceiro tipo de livros de auto-ajuda de instrução são os "Manuais de Intrução". Eles parecem os "dicas de mestre", com a diferença de que o autor não é um mestre, isto é, uma sumidade reconhecida e em geral o tema é específico. Ex: "Pai Rico Pai Pobre", do antes desconhecido Robert Kyiosaki, sobre educação financeira para crianças.
Ainda como "instrução" ponho livros que costumam ser classificados como "Vida Prática", isto é, aqueles que te ensinam algum ofício ou hobby ("Como Tricotar", por exemplo).

Já no pólo "cura" temos no extremos os "Panacéias", isto é, os livros que prometem curar todos os problemas. Ex: "Você pode curar sua vida", de Lousie Hay. Afunilando, também temos os livros "Terapêuticos", que prometem curar problemas específicos, como "Superando a Dislexia", ou algo assim.

Pelo critério b), esses livros variam entre "mudar o mundo e você muda em seguida" a "mude você e o mundo muda depois". Ou seja, de lado os livros que dizem que a mudança ocorre de dentro pra fora e de outro os que dizem que ela ocorre de fora para dentro.

Alguns livros de auto-ajuda pregam que a mudança se dará pelos sentimentos e pela "interioridade" do leitor. Todos os de Programação Neuro-Lingüística se enquadram nesse tipo. Já outros dizem que importante mesmo é aprender novos hábitos, novas rotinas de vida, a mudar seu contexto. Por exemplo, "Pai Rico Pai Pobre", que ensina competências financeiras.

O gráfico a seguir é uma síntese de minha tipologia :



Assim, por exemplo, "Pai Rico Pai Pobre" estaria situado nesse gráfico perto de "Ajuda com Instrução" (pois se propõe a ensinar competências) e "Mudar de fora para dentro" (porque diz que a solução está em aprender hábitos e mudar seu mundo particular). Já "Você pode curar sua vida" estaria numa posição radicalmente oposta: perto de "ajuda com cura" e "mudança de dentro para fora".

OBS: em geral, os únicos livros de auto-ajuda que podem ser bons estão situados no pólo "Instrução". Ex: "Paixão por Vencer", de Jack Welch (por causa da notoriedade do autor, que torna o livro leitura útil por valor histórico).

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

SuperNanny


Mary Poppins virou auto-ajuda!!!


Será que você já viu o filme da Disney (eca!) “Mary Poppins” (de 1964)? A trama consiste na intervenção miraculosa de uma super-babá com poderes mágicos que muda uma família inglesa desestruturada. Inspirado nesse clássico moderno foi criado o Reality Show “SuperNanny” (não por acaso na Inglaterra), que conta atualmente com uma versão de sucesso no Brasil, estrelado por Cris Poli no papel da babá que, ao contrário de Miss Poppins não usa passes de mágica mas sim técnicas comportamentais (apesar de não assumir).

A palavra-chave da abordagem de Cris Poli, que aliás ela repete diversas vezes ao longo de cada episódio é disciplina. A intervenção da super-babá consiste basicamente em gerar, através de técnicas clonadas da Terapia Comportamental (sem contudo referenciar jamais a fonte!) práticas de rotinas saudáveis na família (como refeições à mesa com todos juntos, diálogo, reconhecimento, etc).

SuperNanny usa técnicas tais como time-out, extinção, imitação de modelos, reforçamento negativo, esquemas intermitentes de reforço, etc. Mas, como eu disse, ela nunca cita Skinner nem nada do gênero. (Interessou-se pelos procedimentos? Vá estudar Análise Experimental do Comportamento porque no show da TV você não vai aprendê-los de verdade!)

Um elogio que tenho que fazer ao show televisivo é esse: ele é um bom divulgador, numa mídia aberta, da Terapia Comportamental. Isto é, ao menos milhares de pessoas passaram a saber que existe algo na Psicologia além da Psicanálise ao ver esse show.

A crítica mais severa que tenho a fazer é a de que o show, até por motivos de lógica televisiva (como ter que aglutinar uma intervenção por episódio de cerca de 40minutos), reduz a intervenção a algo que parece simples. Tal como no filme "Mary Poppins", parece mágica o que Cris Poli faz. Muitas vezes na vida real as intervenções são mais longas, custosas, desafiadoras, frustrantes. Além disso muitos pais que viram Cris Poli agindo na TV podem achar que "é fácil" e sair simplesmente aplicando “tecninhas” sem saber ao certo o que estão fazendo ao invés de procurar ajuda profissional. (Por isso acho que Cris Poli prestaria um grande serviço a sociedade se usasse algum espaço em seu programa para divulgar profissionais que poderiam fazer seu trabalho pelo Brasil).

Fora isso, agora ela inventou de escrever livrecos de auto-ajuda que são como receitas de bolo para pais aflitos de filhos-problema... Com isso ela perdeu pontos no meu conceito!

De um modo geral eu sou a favor de Reality Shows como SuperNanny uma vez que eles divulguem alguma ciência ou técnica (Assim como Pimp My Ride divulga o belo trabalho de engenharia e afins em oficinas mecânicas).

Mas depois de ver um episódio de SuperNanny não se dê por satisfeito: pegue as anotações que você fez ao longo do programa e vá estudar o que ela fez, quais técnicas usou, o que significam ela, no que a observação da “analista” foi boa e no que foi má, quais suas falhas e acertos em termos de resultado, etc.

SuperNanny vale como divulgação e ilustração, mas não como aprendizagem efetiva. Ninguém vai aprender a modificar comportamentos vendo um show de tv.


quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Casais Inteligentes Enriquecem Juntos





Seja financeiramente esperto: não gaste 30$ neste livro






Todos os livros de auto-ajuda financeira dizem mais ou menos as mesmas coisas: “Entenda seu perfil de desejos”, “Seja previdente”, “Não gaste muito”, “Invista o que poupar”, “Trace objetivos”, etc, etc, etc.

Casais Inteligentes...”, do atualmente consultor pop e palestrante motivacional Gustavo Cerbasi, não foge a regra. Ele diz as mesmas coisas, p.e., que “Investimentos - Aprenda a Lidar com Seu Dinheiro” diz (também resenhado neste Blog).A única coisa peculiar nele é que o enfoque no ciclo de vida de um casal padrão (heterossexual, monogâmico e formado de família nuclear).

Ao lado do pacote das obviedades financeiras “Casais Inteligentes...” traz dicas esparsas sobre hábitos que casais de namorados devem ter, depois de recém-casados e assim por diante, seguindo as fases do ciclo vital do casal: quando os filhos nascem, quando os filhos ficam grandes e sem vão, quando o casal fica sozinho na maturidade, etc.

Mas, cá entre nós, as dicas são mesmo ruins. Por exemplo, na parte dedicada a dicas para como o casal lidar com a mesada dos filhos consta apenas duas páginas de um texto superficial, que não responde a quase nada. Para casais de namorado, as dicas são toscas: “Como não gastar muito para comprar um presente para sua namorada”.

Além desses fatos há um outro livro clássico de auto-ajuda, escrito há decadas, chamado “Casais e Dinheiro”, de Victoria Felton-Collins que é muitíssimo mais denso e profundo na temática. Até parece que Gustavo Cerbasi leu “Casais e Dinheiro” e fez uma adaptação superficial para o público brasileiro.

Em suma, vale mais a pena que o casal tenha conversas francas e/ou peçam orientações e dicas para casais mais maduros do que gastar 30$ nesse livro.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

"Investimentos - Como Administrar Melhor Seu Dinheiro"




O que todo mundo esperto já sabia sobre Finanças Pessoais






"Investimentos - Como Administrar melhor seu dinheiro", de Mauro Halfeld, foi um marco da auto-ajuda brasileira. Foi o primeiro bestseller de auto-ajuda financeira nacional. Custa 30$ e não vale a pena ser comprado pois basicamente diz o que todos os outros anteriores já falavam com alguns detalhes peculiares ao Brasil.

Esse livro basicamente seguiu a onde "Pai Rico Pai Pobre" de auto-ajuda financeira. Contudo "Pai Rico..." diz respeito a realidade econômica e jurídica dos EUA. "Investimentos..." veio para falar mais ou menos as mesmas coisas, porém com dicas específicas para brasileiros.

Explicando...

"Seja previdente"

"Comece a investir cedo"

"Reserve 10% de sua renda para investir"

"Descubra seu perfil de interesses e compre ativos apropriados a ele"

"Pense a longo prazo"

"Arrisque de forma inteligente uma porção adequada de seu montante"

"Diversifique investimentos num portfólio heterogêneo"

Ou seja, as mesmas dicas de sempre.

A vantagem é que, por ser nacional, ele dá dicas apropriadas pro Brasil. Por exemplo, sobre investimentos imobiliários levando em conta a legislação nacional.

Mas de um modo geral todas essas dicas podem ser obtidas grátis, na internet, ou conversando por 10 minutos com quem entende.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

(ESPECIAL) Lair Ribeiro


Ao lado de Içami Tiba, Augusto Cury e outros, Lair Ribeiro certamente é um dos maiores aproveitadores nacionais do baixo índice de alfabetização científica no Brasil




Médico cardiologista por formação, chegou a Programação NeuroLingüística (PNL) por acaso, e aproveitou sua habilidade de oratória e o então vácuo editorial da auto-ajuda brasileira sobre o tema e fez carreira. Hoje em dia vive de royalties de seus bestsellers bem como de palestras motivacionais batidíssimas que dá a preços salgados.

Lair Ribieiro na verdade escreveu apenas um livro: "Comunicação Global - O Poder da Influência", em 1993. (Os demais são releituras alteradas desse).


Todos os outros livros dele (e foram inúmeros) são aplicações específicas dos conceitos gerais de "Comunicação Global" a temas em voga. Por exemplo, "Emagreça Comendo" é um "Comunicação Global para emagrecer", enquanto "Como passar no vestibular" é um "Comunicação Global para passar no vestibular". Os temas, claro, foram muito espertamente determinados pelo pessoal de marketing da editora.

"Comunicação Global" é um manual prático de PNL, no melho estilo daquela praticada e popularizada nos EUA em 1960-70.

A PNL parte da idéia fundamental que nossos sentimentos são a causa de nossos comportamentos e que podem ser alterados mediante exercícios de verbalização e imaginação. Assim, p.e., comerei compulsivamente se meus sentimentos de baixa auto-estima me moverem a isso e para curar esse quadro posso imaginar que a comida é algo ruim enquanto repito pra mim mesmo "Não preciso comer", diversas vezes, concentrado.

Em outras palavras, trata-se de um processo pavloviano de condicionamento respondente (associar um estímulo a uma resposta). O objetivo das práticas de PNL é de marcar a ferro e fogo "programas mentais" que automatizem certas respostas tidas como saudáveis a problemas.

Pra começo de conversa quero frizar que ao enfatizar o papel dos sentimentos a PNL descuida de uma análise personalizada do ambiente em que vive o indivíduo. (Nenhuma avaliação criteriosa da pessoa é feita, e ela já vai logo aplicando "tecninhas").

Outra crítica é que os "exercícios mentais" dela precisam ser regularmente repetidos para manutenção dos benefícios obtidos, numa espécie de obsessão que alguns poderiam chamar de "lavagem cerebral".

Fora que ao misturar Pavlov com concepções mentalistas do ser humano a PNL mostra bem que não é nada científica (falta rigor conceitual).

Se funciona?

Respondo assim: se você der uma injeção de dopping em um atleta, ele pode até correr mais rápido naquela prova, mas isso gera um atleta melhor a médio e longo prazo?

Lair Ribeiro parece vender, na verdade, injeções de ânimo de efeito imediato que não alteram de forma duradoura os clientes.

Enfim, recomendo a leitura de Pavlov e Watson (pelo valor histórico) e de Skinner (pelo científico) para quem se interessa por técnicas comportamentais verdadeiramente científicas.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Não faça tempestade em copo dágua


"Minutos de Sabedoria", versão pseudo-científica
Você já viu de relance ou mesmo leu "Minutos de Sabedoria", de C. Torres Pastorino? (Tem pra vender por 1$99, acho, em qualquer banca de jornal, há decadas).
Pois é. "Não faça tempestade..." é igualzinho. Não passa de uma coletânea de frases amenas que tem por objetivo relaxar o leitor. Estilo: "Quando você começar a se sentir mal, faça um esforço feliz para se sentir bem!" Fora isso, está escrito no mesmo formato: enunciados soltos, que podem ser lidos em qualquer ordem, basta escolher uma página aleatoriamente.
O problema é que ao contrário de seu ancestral, "Não faça tempestade..." tem a pretensão de ser científico. O título de PhD do autor é exposto de forma insistente, bem como na introdução diz-se que a obra é o resultado da integração "da Filosofia Oriental com a Psicologia Ocidental".
Em suma, pura obviedade que funciona como doses homeopáticas de anestesia pro stress. A mensagem do livro é essa "Tudo na vida são copos dágua" (aliás, é o sub-título do livro) "portanto, relaxa, cara!"
Se essas doses funcionam pra relaxar? Não sei não.. Afinal, o autor "teve" que lançar novas versões do livro. Sente só os títulos:

"Não faça tempestade em copo dágua NA FAMÍLIA"
"Não faça tempestade em copo dágua NO TRABALHO"
"Não faça tempestade em copo dágua PARA ADOLESCENTES"
etc
Um dia espero que ele lance algo como "Não faça tempestade em copo dágua COM AUTO-AJUDA"

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Psicólogos devem ler auto-ajuda?

PRÉVIA: recomendo que você só leia este post se já leu e está bem lembrado do primeiríssimo post deste blog, onde explico o que é auto-ajuda.


Ok, ok. Lá estou eu, Alessandro, psicólogo, na livraria. Minha profissão tem na palavra um instrumento central, talvez o maior de todos, por isso vou muito em livrarias, sempre tenho uma listinha de obras da minha área que preciso e quero ler.

Adivinhem, contudo, qual a primeira prateleira na qual eu sempre vou?

Auto-ajuda!

Claro que eu nunca compro os livros. Hehehehe. Apenas sondo os títulos, os temas, folheio, leio as orelhas, etc.

Apesar de abominar tudo aquilo que ela representa, acho fundamental que os psicólogos estejam por dentro do que rola nesse mercado.

Os motivos são vários:

1) o conjunto desses livros fornece uma radiografia dos problemas atuais. Por exemplo, se muitos casos de anorexia aparecem, do dia pra noite surgem diversos livros de auto-ajuda sobre o tema.

2) os clientes do psicólogo muitas vezes vão chegar até ele com conceitos e idéias que extraíram desses livros, e o psicólogo precisa entender essas bobagens para se comunicar com o cliente

OBS: Isso é especialmente verdade para o psicólogo organizacional !!

3) esses livros representam a mediocridade em termos de tratamento de problemas. Estando por fora deles, você está por fora até mesmo da mediocridade! (É como dizer "Não vejo TV" e em seguida criticar prolixamente a TV, após ter confessado que não sabe quase nada sobre ela).

Mas, voltando a pergunta título deste post: o psicólogo deve ler auto-ajuda?

Minha resposta, enfática: NÃO!

Ele só precisa ler meu Blog. ;-)


Hehehe, falando sério... Quero dizer que precisamos estar antenados com o que rola nesse mercado, mas não devemos estudar esses livros, visto que na verdade não são livros, são produtos. Já temos muitos livros clássicos e atuais de Psicologia de verdade para estudar, e não cabe ficar enfiando tosquice na lista.

A atitude do psicólogo diante da auto-ajuda deve parecer a de um antropólogo diante de uma tribo perigosa: dialogue, sonde, pesquise, mas numa distância saudável e sem se tornar um deles.

Minha recomendação: discuta a auto-ajuda, seus sinais, sua atualidade, suas tendências, seus significados. Mas não mergulhe nela, porque você certamente voltará cheirando mal se o fizer.

"O Homem Mais Rico da Babilônia"




Pasme, caro leitor: eu vou falar BEM deste livro!!!!
Você encontra até por 19$90 por aí, mas só compre se depois de ler este
post você ficar especialmente interessado.



"O Homem Mais Rico da Babilônia" é uma rara exceção no mercado da auto-ajuda, visto que ele é inovador, gostoso de ler e realmente tem algo a dizer.

Ok, ok, explico.

Essas qualidades do livro só são possíveis porque ele foi escrito na década de 1920. Ou seja, ele representa uma auto-ajuda ainda "pura" comparada com a indústria altamente munida de hoje.

Para a época foi uma inovação falar de educação financeira em um livro ficcional, e não em chatíssimos manuais ou colunas de jornais. Mais inovação ainda foi fazer isso no formato de uma fábula moral. A narrativa é cativante e divertida, e gira em torno do Reino da Babilônia, onde o Rei ordena que Arkad, o homem mais rico do Reino, ensine a seus ministros e uma grande comitiva de comerciantes a arte de enriquecer, para que assim a Babilônia se torne o mais próspero dos impérios.

"O Homem mais rico.." tem algo a dizer no sentido de dar boas dicas sobre finanças pessoais, como sempre reservar 10% da renda assim que botar as mãos no dinheiro. Isto é, poupar primeiro, gastar depois e no fnal do mês decidir onde investir o que foi poupado.

Aliás, o livro é uma série de dicas como essa, num formato de fábula moral. Nada mais.

Não tem nenhuma pretensão real de "ajudar as pessoas", revelar segredos do universo, ou curar problemas, etc.

Não passa de uma "
história infantil para adultos", sobre um tema bem sério: grana.

Atenção: só compre se o tema "Educação Financeira" for de fato muito importante pra você. Caso contrário, vale mais a pena ler um resumo dos conceitos em algum site e não gastar os 19$90.

sábado, 18 de agosto de 2007

"A Arte de Viver"



Um ancestral da auto-ajuda.

Mas ainda assim, fraco como toda auto-ajuda moderna.






Esse livro, da editora Sextante, é uma versão um tanto reescrita do clássico de Epitecto, filósofo da Roma Antiga.

Tem um valor histórico grande, uma vez que Epitecto foi um precursor da auto-ajuda. Mas não é por esse significado acadêmico que o livro deixa de ser uma porcaria.

Como eu já disse, Epitecto foi um dos primeiros a fazer o que hoje chamamos de auto-ajuda. Na Roma de César esse filósofo era pago por grandes generais para dar palestras motivacionais para as tropas, bem como escrever manuais de filosofia que eram levados no bolso para leitura individual nas campanhas militares. Tais livrinhos não passavam de uma coletâneas de dizeres, aforismas e máximas que tinham por objetivo levantar o moral dos combatentes e deixá-los dóceis às ordens de seus superiores.

"A Arte de Viver" é em parte um resultado desses manuais para soldados.

Epitecto, que foi escravo, tinha uma visão de felicidade que consistia basicamente em obedecer regras imutáveis. Sua obra, certamente por conta desse detalhe importante de sua biografia, pode ser resumida da seguinte forma: "Entenda as leis do universo, se conforme com elas, aprenda a obedecê-las de forma prudente. Assim você cumprirá seus deveres, não pensará em coisas tolas e será feliz".

Assim, podemos dizer que "A Arte de Viver" é um manual para formação do escravo feliz. A palavra-chave para entender esse livro é conformismo.

É curioso notar como a auto-ajuda "evoluiu" desse ancestral para uma abordagem não-conformista, na Modernidade. Epitecto vende hoje por causa de seu valor histórico, e da brandura de suas máximas, que têm o efeito de uma analségico nas ansiedades em pessoas que já tenham uma atitude conformista para com a vida.

Mas o público (pós?) Moderno em sua maioria prefere auto-ajuda que diga "Não se conforme! Seja o que você quiser ser. Você pode tudo!"

quarta-feira, 25 de julho de 2007

"Quem somos nós?"

Sinceramente, se pra saber você precisa ver esse filme, é melhor ficar na ignorância (que, como diz o outro, pode ser uma benção)



Sem exagero, esse é uma das piores coisas que eu já vi. (OBS: Fui forçado a tal porque todo mundo no escritório resolveu fazer uma sessão de cinena cult. Afff!)

Parece que agora virou modinha auto-ajuda sair disfarçada de documentário ("O Segredo" vai na mesma linha). Credo! Acho que isso acontece porque as pessoas andam tão desacostumadas a ler que preferem sentar a bunda num sofá por pouco menos de 2 horas e fingir que aprenderem como ser felizes vendo a um filme (ruim).

Resumidamente, "Quem Somos Nós?" (bluerrgghhh! Desculpem!) é um misto de documentário e ficção. O filme narra a história de uma fotógrafa madura, inteligente e surda-muda(detalhe irrelevante posto apenas para ser politicamente correto) que se depara com dúvidas sobre o Ser, a Existência, etc. Ao longo do filme, de maneira mágica, ela vai sendo apresentada a conceitos científicos(?) de Física Quântica, Genética e Psicologia, e no final ela chega a conclusão que a vida que ela leva é criada por ela mesma, por isso ela precisa ter pensamento positivo.

FIM.

Sério. É isso.

Isso e uma I-N-T-E-R-M-I-N-Á-V-E-L seqüência de cenas com discursos cabecistas, jargões de Física Quântica, mil celebridades acadêmicas falando como gurus New Age, dentre outras coisas insuportáveis.

Nisso ele lembra o também cabecista "O Tao da Física", de Fritjof Capra. E até aquele filme modorrento que saiu dele, onde três personagens ficam dialogando por umas 5 horas de filme e no final não concluem nada.

"Quem Somos Nós?" tem um roteiro tão confuso que os 40 minutos iniciais, amenos e filosóficos, viram do nada uma comédia pastelão (estilo Trapalhões mesmo!) com danças tresloucadas, gente dando piti e animações computadorizadas tosquíssimas.

A mensagem (de que "somos os co-criadores da Existência".. que lindo!) é repetida 1000 vezes e de forma exaustiva. O filme poderia ter acabado em umas 12 cenas que daria na mesma. Mas ao invés disso ele se extende, e extende... e extende... (o que me faz crer que se trata de uma tentativa pavloviana de lavagem cerebral).

Enfim, odiei! Recomendo como laxante.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

"Filho Rico Filho Vencedor"





Apenas mais do mesmo. E ainda por cima mais caro!




Desta vez custa 59$90! (O primeiro da série, "Pai Rico Pai Pobre", custa hoje 29$90). Além de mais papel e volume, o livro não muda em nada do primeiro. Basicamente os mesmos conceitos e filosofia do primeiro livro, acrescido de duas coisas:

1) uma tipologia de perfis financeiros possíveis para seu filho, em Investidor, Dono, Patrão e Empregado. Kiyosaki prescreve que devemos ensinar nosso filhos primeiro a ser padrões e donos, almejando que se tornem investidores (estágio final do desenvolvimento financeiro, quando a pessoa não precisa mais trabalhar para viver: vive de rendimentos de seus ativos).

2) uma série um tanto desconexa de dicas de como preparar as crianças, dentro de casa, para serem investidores, donos de negócios, patrões.

Minha maior crítica a esse livro é que Kiyosaki se propõem a ensinar um importante tema para crianças (educação financeira) sem parecer levar em conta teorias do desenvolvimento infantil, motivação, modelos de aprendizagem, etc. O livro apenas oferece dicas que devem ser pescadas pelo leitor.

Faz falta uma teoria geral que dê estrutura pro que ele diz. Sem esse rigor conceitual, a obra parece mais uma daquelas sacolas de onde se tira versinhos inspiradores pro cotidiano.

Um ou outra dica é boa, como esta

"P: Quando devo falar de dinheiro com meu filho?"
"R: Quando ele demonstrar interesse. Não importa a idade"


Cito também a dica de dar mesada numa curva crescente de valor conforme a idade, junto a bônus por serviços domésticos, mas parar quando a criança tiver condições de ter um emprego simbólico, como cortar a grama dos vizinhos, para fazer seu próprio dinheiro.

Mas é isso que o livro é: um apanhado de dicas, escritas de uma forma meio desorganizada e prolixa. Sim, prolixa. Até acho que ele iria fazer muita grana se lançasse uma versão "Leitura Rápida", de apenas 20 páginas.

domingo, 22 de julho de 2007

"O Poder da Inteligência Emocional"


Já falei sobre o livro "Inteligência Emocional", de Daniel Goleman, neste Blog (se não leu, confira antes de ler este post).

Por isso o comentário sobre "O Poder da Inteligência Emocional" será mais curto. Afinal esse livro não acrescenta nada conceitualmente (não que Goleman tivesse formidáveis conceitos. Longe disso!). A inovação dele está na aplicação da "teoria" de Goleman na temática específica da liderança em organizações.

O ponto alto do livro e única coisa que compensa ser estudada e refletida nele é uma tipologia interessante de líderes pelo critério do uso que fazem de suas emoções para exercer influência sobre os liderados.

Os líderes podem ser consonantes (se usam emoções positivas, agradáveis para liderar, como alegria, amor, enlevo, empatia, etc) ou dissonantes (se fazem uso de emoções consideradas negativas, como medo, raiva, etc). Os autores defendem que em determinadas circunstâncias, um líder dissonante que seja um verdadeiro déspota é o mais indicado. Por exemplo, quando é necessário transformar uma organização que está em total caos emocional. Mas recomendam, de um modo geral, que emoções agradáveis sejam cultivadas como marcas de liderança.

E esse é o mérito de "O Poder da Inteligência Emocional": reconhecer que nem todo líder precisa bonzinho e que ser um "servidor amoroso" não é a fórmula única da liderança(como diz "O Monge e o Executivo").

sexta-feira, 20 de julho de 2007

"Aprender a Viver"







Nova tendência: incentivar o filosofar ao invés de dar dicas prontas de auto-ajuda







O sucesso de "Aprender a viver" reflete uma tendência. A de que algumas pessoas preferem lições introdutórias de Filosofia a ler auto-ajuda (que é Filosofia barata). São outros sinais dessa tendência: saraus, jornadas científicas para leigos, varais literários, a popularização de seminários intelectuais e organizações como a "Casa do Saber", em SP.

A tendência é essa: gente com grana e alguma escolaridade estudando Filosofia por conta própria, seja porque é bonito (educação humanística clássica), porque está na moda (e tudo que vem da França não vira moda?), porque é instigante (intelectual e existencialmente) ou porque ajuda no Curriculo (alguns empregadores podem se impressionar).

O autor é um intelectual badalado, já foi Ministro da Cultura da França. O livro não é auto-ajuda. Digo isso não porque ele não consta na tal lista da Veja (a revista o classifica como "Livro de Não-Ficção"). Mas sim porque ele não contém fórmulas para sair por aí aplicando para ser feliz. Em suma, não é um manual. Está mais para um almanaque de Filosofia. Ou um resumex "FIL 101".

Se você acha que vai ler livros como esse e ter respostas para suas perguntas está errado. O propósito do livro é apresentar panoramas sobre questionamentos e reflexões de diversos filósofos sobre temas variados (morte, saúde, amizade, amor, ética, etc) e com isso incentivar o leitor a filosofar por conta própria. Ou seja, fazer o leitor gerar mais questões ainda, ao invés de responder as suas. Esse exercício intelectual é salutar, defende o autor, para aprender a viver.

O livro de Luc Ferry é apenas um expoente de uma corrente que vem crescendo, especialmente com os autores da "Psicologia Positiva", como Seligman. Corrente distinta da auto-ajuda, e que pode ser identificada como uma tentativa de popularizar temas que historicamente estão restrito ao meio acadêmico. Dentre eles, destaca-se a Filosofia Clássica, em especial em sua dimensão Ética.

Isso porque o grande objetivo desses livros é promover a reflexão e o aprendizado da Felicidade, por isso sempre enfatizam aspectos éticos, e não estéticos, lógicos, políticos, etc.

Acho essa estratégia didático-editorial de Filosofia uma tendência interessante, pois ela é francamente didática e não formulativa. A única crítica cabível seria a de se ser superficial demais no conteúdo, ou de restringir-se utilitariamente a questões éticas, deixando de lado toneladas de filosofia sobre Metafísica, Estética, Política, etc.

Mas ora... E qual introdução é densa e profunda?

Deixando claro: não é auto-ajuda, mas também ninguém larga esses livros entendendo de fato de Filosofia.