sábado, 18 de agosto de 2007

"A Arte de Viver"



Um ancestral da auto-ajuda.

Mas ainda assim, fraco como toda auto-ajuda moderna.






Esse livro, da editora Sextante, é uma versão um tanto reescrita do clássico de Epitecto, filósofo da Roma Antiga.

Tem um valor histórico grande, uma vez que Epitecto foi um precursor da auto-ajuda. Mas não é por esse significado acadêmico que o livro deixa de ser uma porcaria.

Como eu já disse, Epitecto foi um dos primeiros a fazer o que hoje chamamos de auto-ajuda. Na Roma de César esse filósofo era pago por grandes generais para dar palestras motivacionais para as tropas, bem como escrever manuais de filosofia que eram levados no bolso para leitura individual nas campanhas militares. Tais livrinhos não passavam de uma coletâneas de dizeres, aforismas e máximas que tinham por objetivo levantar o moral dos combatentes e deixá-los dóceis às ordens de seus superiores.

"A Arte de Viver" é em parte um resultado desses manuais para soldados.

Epitecto, que foi escravo, tinha uma visão de felicidade que consistia basicamente em obedecer regras imutáveis. Sua obra, certamente por conta desse detalhe importante de sua biografia, pode ser resumida da seguinte forma: "Entenda as leis do universo, se conforme com elas, aprenda a obedecê-las de forma prudente. Assim você cumprirá seus deveres, não pensará em coisas tolas e será feliz".

Assim, podemos dizer que "A Arte de Viver" é um manual para formação do escravo feliz. A palavra-chave para entender esse livro é conformismo.

É curioso notar como a auto-ajuda "evoluiu" desse ancestral para uma abordagem não-conformista, na Modernidade. Epitecto vende hoje por causa de seu valor histórico, e da brandura de suas máximas, que têm o efeito de uma analségico nas ansiedades em pessoas que já tenham uma atitude conformista para com a vida.

Mas o público (pós?) Moderno em sua maioria prefere auto-ajuda que diga "Não se conforme! Seja o que você quiser ser. Você pode tudo!"

4 comentários:

MrE disse...

Nietsche falou coisas interessantes sobre a ética do escravo. Tem a ver com aquela coisa de ir além do bem e do mal e a vontade do poder. Ele viu q antigamente o bom pelos gregos era a força a beleza, a saúde. E com o cristianismo principalmente eles inverteram essa ética. Tudo q era bom virou defeito: O céu será herdado pelos fracos, etc...

Adriano Facioli disse...

alessandro, muito boa a sua ideia de fazer um blog sobre a industria da auto-ajuda. ja dei umas lidas e gostei muito. indicarei para meus alunos, geralmente calouros, que só leem este tipo de coisa...
um abraço
adriano facioli

Adriano Facioli disse...

e sobre o mitômano augusto cury, vc nao diz nada?

Adriano Facioli disse...

to lendo, ainda o "aprender a viver" aqui. o capitulo sobre os estoicos lhe ajudaria a compreender melhor esta historia. e ha um outro livro tambem, do comte-sponville, "a felicidade, desesperadamente", excelente. "auto-ajuda" de filosofia, de altissimo nivel. desce o cacete na esperança. esperar é desejar sem saber e sem poder. desejar menos o que nao se tem e mais o que ja se tem. te dou varios exemplos. vc precisa ler comte-sponville. é muito bom. ja leu algo dele? escreveu tb "o pequeno tratado das grandes virtudes". o cara é muito, muito bom. é meu filosofo contemporaneo de cabeceira.