Este post surgiu de uma contribuição muito especial de Luiz Graton, leitor deste blog, que enviou a seguinte informação estarrecedora para mim:
"Em pesquisa realizada em março de 2004, pelo IBOPE, entre os psicólogos do Conselho Federal de Psicologia, os entrevistados colocaram o Dr. Içami Tiba como terceiro autor de referência e admiração - o primeiro nacional.
1º- lugar: Sigmund Freud;
2º- lugar: Gustav Jung;
3º- lugar: Içami Tiba.
Seguem C. Rogers; Lacan; M. Klein; Winnicott e outros.Esses dados foram publicados no Jornal de Psicologia nº- 141, edição julho /setembro de 2004, do CRP-SP."
Primeiramente penso ser oportuno destacar que Içami Tiba é psiquiatra e não psicólogo (apesar de ter formação em psicodrama). Acho sintomático os psicólogos brasileiros não votarem em um psicólogo como autor de referência, mas em médicos (Freud, Jung e Tiba). Mas isso é assunto para outro post...
Vendo os livros da autoria de Içami Tiba na BU-UFSC pude notar que todos giram em torno da educação familiar aos jovens. Tiba se tornou o maior porta-voz brasileiro da tese de que a escola não deve ser a responsável pela educação moral: isso é responsabilidade da família no lar.
Partindo dessa tese central, Tiba desenvolve outros dois sub-temas da educação familiar em seus diversos livros: a) a disciplina na medida certa e b) o controle dos adolescentes, especialmente quanto ao uso de drogas.

Para ser sincero, eu que nunca li esse autor, até me empolguei com os temas, uma vez que eles realmente são muito oportunos no atual contexto social. A propósito, tive mesmo a impressão que Tiba fez uma pesquisa de marketing para saber quais os temas que venderiam mais...
Movido por curiosidade peguei "Quem Ama, Educa!" (um de seus maiores bestsellers, num exemplar de 37a edição pela Editora Gente) na BU-UFSC e levei para ler em casa.
Que decepção!
A primeira coisa que notei é que, pela linguagem, o livro parece ter sido escrito para crianças de cinco a dez anos. Ainda sobre a forma, há uma total falta de referências bibliográficas e o livro todo é escrito como um ensaio livre. Tiba simplesmente sentou-se na frente de seu PC e começou a digitar suas idéias (psicólogos andam com preguiça de ler textos densos, pelo visto).
A primeira parte do livro é dedicada a explicar as diferenças entre homens e mulheres, pais e mães. Removi alguns trechos hilários:
"A mulher vai pensando enquanto fala. O homem pensa antes de falar" (Umas amigas minhas, feministas, ficaram loucas para encontrar Içami Tiba depois dessa!)
"Numa refeição em casa, se o filho não quer comer, "Que não coma", pensa o pai. A mãe faz de tudo para alimentá-lo com carinho" (Ou seja: "Homens, tudo bem vocês serem grosseirões com seus filhos. É da natureza de vocês!")
"O marido é na verdade um filho temporão da esposa" (Claro, Tiba... Afinal macho que é macho é imaturo, boboca e deixa cueca suja no box).
"O pai ou a mãe nunca se transforma biologicamente no progenitor do sexo oposto" (Ah, ainda bem que ele me avisou!)
"Nosso comportamento sexual tem bases biopsicossocioantropológicas" (Caramba! Será que ele consegue dizer essa palavra três vezes bem rápido numa conferência?)
O livro prossegue com uma tipologia bizonha dos comportamentos, classificados em três classes: vegetal (ser passivo), animal (ser agressivo) e humano (disciplinado e afetuoso). Ok, Tiba simplesmente inventou essa tipologia, como uma espécie de parábola. Aliás, o livro está abarrotado de metáforas parecidas. Ele não sabe que só se usa muitas metáforas quando o público-alvo é completamente ignorante? (Ops, acho que ele sabe sim...)
A partir daí o livro vira uma seqüência de perguntas-e-respostas, no estilo daquelas colunas de auto-ajuda de revistas semanárias. Todas as respostas, claro, escritas com linguagem para criança, sem referências e repletas de opiniões particulares e cheias de preconceitos (especialmente sexistas).
Vale destacar... Em uma das perguntas, sobre videogames e violência, Tiba responde contando uma história de dar medo, onde um garoto e seus comparsas ensaiavam o seqüestro da namorada em um videogame... Ora, ora, ora. Eu, que atuo na área de games há 5 anos, nunca ouvi falar de um game em que fosse possível isso! Ademais, a história, que tem cara de notícia de jornal de segunda categoria, não tem referência bibliográfica alguma. Pode muito bem ser uma lenda urbana, ou pura invencionice da cabeça criativa de Içami Tiba!
Concluindo... O que me parece é que Içami Tiba faz sucesso porque fala (mal) coisas óbvias sobre problemas atuais, baseado em achismos. Só conseguiu a projeção atual porque fez uso da indústria da auto-ajuda. Saber que Içami Tiba é a grande referência para os psicólogos brasileiros e que ganha fortunas dando conferências sobre educação me entristeceu em relação a essa classe profissional!