assim é o leitor que busca
auto-ajuda em romances, para Bloom
Em “Como e porque ler”, pela Ed. Objetiva, (o título é um bocado pretensioso, não acham?) o famoso e polêmico crítico literário Harold Bloom traça uma teoria pela qual toda Literatura de qualidade é uma forma de auto-ajuda pois promove uma “terapia pela narrativa” baseada em três princípios: 1) amenizar a solidão, 2) ensinar algo sobre a vida e 3) promover Sabedoria por meio do refinamento da ironia do leitor.
Amenizar a Solidão
Logo na introdução Bloom define a prática da leitura voluntária de romances como algo que serve para “amenizar o sofrimento da solidão”. Diz ainda que os

Ensinar algo da vida
Cada romance, para ser de fato Literatura de qualidade, ensina algo universal sobre a condição humana. Partindo dessa tese Bloom afirma que ao nos identificarmos com os personagens dessas narrativas sofremos e aprendemos junto com eles. (Um caso especial de aprendizagem vicária). Ele chega a afirmar que ao aprender com a experiência dos personagens não precisamos nós mesmos sofrer para aprender (ou seja, podemos abrir mão de ter experiências de vida).
Sabedoria por meio da ironia
Desenvolvendo sua tese sobre a aprendizagem o crítico literário afirma ainda que a leitura ensina e refina uma habilidade fundamental para o homem: a ironia. Bloom empresta esse conceito de Kierkegaard (filósofoso existencialista dinamarquês), para quem ironia é a arte de dizer uma coisa profunda falando algo superficial que parece não ter nada a ver com ela. Ou seja, cada romance ensina importantes lições de vida para o leitor a medida que este se torna mais irônico e passa a conseguir enxergar a verdade nas entrelinhas. Quando comenta sobre Proust, por exemplo, o crítico diz que esse é carregado de um “fascinante azedume”.
A sabedoria, em Bloom, está muito associada ao sentido clássico da Tragédia Grega: o sofrimento que deve ser aceito e usuufruído para fins de aprendizagem. No final o autor ainda afirma que nos dias de hoje o conhecimento é abundante e acessível, mas apenas o leitor que aderir ao estilo clássico (e aos clássicos da Literatura, especialmente seu adorado Shakespeare) irá conseguir obter algo além do conhecimento: a Sabedoria (conforme o Humanismo Clássico).
Que dizer de tudo isso?
Antes de mais nada, que Bloom não está falando de biblioterapia propriamente dita (que é uma prática mediada por um terapeuta onde a leitura ou escrita de uma narrativa é usada como procedimento clínico). Ele está, na verdade, incentivando a auto-ajuda. Para Bloom, a Literatura é imortal a medida que ela oferece a um leitor “em estado de inércia sombria” a capacidade de ajudar a si mesmo, mas não gerando prazer: suavizando a dor do existir.
Me parece (hipótese) que Bloom está falando tão somente de sua experiência pessoal com a leitura. O que ele diz parece estar carregado de amargura bem como prepotência (a começar pelo título do livro, lembram?).
Acredito que a leitura de um bom romance pode sim, eventualmente, amenizar a solidão de uma noite entediante, por exemplo. Mas não incentivo pessoas lerem para anestesiar suas dores: prefiro incentivar elas a deixarem de ser solitárias, superar seus problemas reais. Da mesma forma acredito que ler ensina muito sobre a vida, mas não permitiria que um amigo deixasse de ter uma vida social, por exemplo, para tão somente dialogar com amigos imaginários que brotam das páginas de livros.
Concluindo... Sou a favor da Literatura como arte, aprendizado e prazeres, mas não como auto-ajuda. Harold Bloom tem seus méritos quando critica livros, mas sua visão de leitor e leitura para mim é bem problemática.
Um comentário:
Meio frouxa essa terapia do Bloom. Também acho um tanto quanto duvidoso que ele decrete que a única forma de alcançar essa sabedoria é através dos clássicos, como se outros estilos fossem escritos por macaquinhos idiotas (e olha que eu acho macacos bem inteligentes!).
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