Os colaboradores estão desmotivados. Que fazer? Contratar um psicólogo, ou celebridade, ou qualquer sorte de bom orador, pode ser uma solução: uma palestra motivacional pode entusiasmar e produzir importantes insights que farão as coisas mudarem.
Correto?
Duvido! Olha, sei não, hein...
O que sempre ouço sobre essas palestras são comentários como "Ficamos entusiasmados, mas alguns dias depois tudo havia voltado ao normal". Então, qual o problema com elas?
Apesar da vantagem prática de poder carregar um livro ou manual de auto-ajuda e ler em qualquer lugar, a palestra motivacional tem uma vantagem maior: o poder mágico do ritual.
Pessoas se reúnem mediante regras de tempo, espaço e papéis, para absorver palavras
especiais ditas por alguém
especial (um santo de fora de casa, quase sempre. Ou seja, um fazedor de milagres) que vão tocar suas mentes e corações e fazer mudanças impressionantes acontecer.
Há algo de mágico nisso.
Mágico em termos de "eficácia simbólica", estudada pela Antropologia, quero deixar claro.
Certamente essas palestras entusiasmam. Ainda mais quando verdadeiros
shows, com bom humor, recursos audio-visuais, interação lúdica com a platéia, etc
Mas então, essas palestras funcionam? Adianta pagar por palestras motivacionais ou isso é mais auto-ajuda?
Thorndike disse que apenas 10% dos benefícios esperados se concretizam quando trabalhos dessa natureza são realizados. E é isso que se observa mesmo. Após 1 mês ou 2,
se não houver estratégias concretas de manutenção da aprendizagem, desses pequenos shows não resta nada mais que lembranças agradáveis.
Fora isso, há também a questão que o público, em geral, já sabe, já tem ciência do conteúdo da palestra. Estão ali apenas para sensibilização, isto é, passar a sentir a importância do conteúdo, além de saber intelectualmente. Por isso é normal ouvir "
Eu já sabia tudo que o palestrante disse. Mas é bom ouvir dele. Vale o dinheiro investido!"Por isso talvez fosse melhor chamar esses eventos de
palestras de sensibilização, e deixar a motivação para sistemas mais eficazes, como programas de remuneração variável, p.e.
Penso que esses são os 2 efeitos possíveis de uma palestra dessas:
sensibilizar (efeito de curto prazo, de natureza emocional) e
informar (efeito de longo prazo, de natureza racional) sobre algum tema. Sobre
motivar, pode até ser, mas duvido muito! Confio mais em outras estratégias motivacionais, como bônus por desempenho, p.e.
Tudo me faz crer que essas palestras são como injeções iniciais em um tratamento farmacológico de longo prazo. De nada adianta conferi-las, se o restante do tratamento não for feito. E esse restante, via de regra, não consiste em tentar mudar o colaborador, mas de tornar a organização em que esse colaborador está inserido um contexto mais inteligente e eficiente de trabalho.
CONCLUSÃO: Não tente mudar apenas a cabeça dos colaboradores. Se eles mudarem e a organização não co-evoluir os resultados não serão nem de longe o esperado! Alie palestras de sensibilização e/ou de informação com estratégias concretas de motivação.